sábado, 31 de agosto de 2013

Autorretrato

Pré-requisitos (opcionais): O Falso Bem, Inversão de ValoresA Arte de Pensar
Autor: Gustavo Spina

Entre os bilhões de planetas, o ser humano é a forma mais complexa, inteligente e evoluída de vida existente no universo. Não é por acaso que esta é uma afirmação feita justamente por nós mesmos. Diante de toda essa supremacia colossal, este texto explora, com detalhes, o autorretrato de nossa raça, mostrando que tampouco se faz necessário sair deste planeta para mostrar ser falsa a afirmação que inicia este parágrafo.

É bem verdade que, com base em conhecimentos científicos e empíricos, ao menos os oficialmente conhecidos e divulgados, somos realmente a forma mais complexa e inteligente de vida na imensidão de todo o universo. Porém, se fôssemos realmente inteligentes dessa forma, não utilizaríamos nossa vasta gama de conhecimentos acumulados durante toda a nossa história para, ainda hoje, fazer guerras, promover a miséria e criar um sistema onde apenas o que importa é a diferença da quantia em dinheiro que temos e que desejamos ter.


Inteligência, em sua forma mais primitiva e simples, de acordo com a maioria dos dicionários, indica a “capacidade de aprender, compreender ou adaptar-se facilmente”, podendo ser diretamente ligada ao raciocínio e à capacidade de escolha ou de resolver problemas, o que nos mostra claramente, e isso, creio eu que já nos é óbvio, que não somos os únicos animais inteligentes na Terra, pois existe uma infinidade de exemplos e estudos os quais mostram diversos animais sendo capazes de resolver problemas de diferentes níveis de complexidade. O que é que nos torna tão diferenciados, então?


A raça humana destaca-se dos outros animais pelo simples fato de viver em grupo, acumular e transmitir o conhecimento adquirido ao longo do tempo. Para compreender isso, basta imaginar uma criança recém-nascida abandonada na selva, sendo apenas alimentada até ser capaz de se locomover, e a partir daí, viver sozinha, tal qual acontece com a maioria dos animais, em seus habitats naturais. É fácil notar que, caso esta criança sobreviva, dada suas desvantagens físicas, não será quase nada diferente de um chipanzé, espécie com o DNA mais próximo do nosso. Porém, quando vivemos em conjunto, somos capazes de nos comunicar, formando padrões, datando e registrando, através da linguagem, tudo o que vivemos e aprendemos, deixando um legado de prévio conhecimento e experiência, uns para com os outros, bem como para as próximas gerações, que a partir daí, avançarão sobre aquele conhecimento prévio, registrando suas novas experiências, e assim por diante.


Desta forma, estes pouco mais de 1% de diferença genética que temos do chipanzé nos proporcionou esta habilidade, e é exatamente isso o que nos faz “evoluir” no decorrer de nossa história, enquanto que os entusiasmados primatas, ou qualquer outra espécie que vive neste planeta, continuam praticamente os mesmos, em um mesmo espaço de tempo. Se unirmos o conceito de inteligência com o de evolução, aplicados aos seres humanos, temos então, como resultado, o uso de nossa capacidade de comunicação e acúmulo de conhecimentos e experiências aplicado no desenvolvimento de novas ideias, técnicas e soluções, que nos mostrem novos caminhos, com base no que aprendemos no passado, para não cometermos os mesmos erros no presente, evoluindo constantemente e construindo, dessa forma, um futuro cada vez mais grandioso.


Entretanto, em pleno século XXI, é comum ainda nos depararmos com a mesma selvageria, instinto predatório e total inconsequência existencial as quais tínhamos há alguns milhares de anos. O fato é que, na realidade, o ser humano, apesar de acumular seus conhecimentos e experiências, não aprende, de fato, com eles, agindo de forma diferente, mas cometendo os mesmos erros, caracterizando-se assim um ser pensante, mas longe de ser inteligente. Um ser capaz de desenvolver-se ao longo do tempo, mas praticamente incapaz de evoluir. Um ser diferenciado, mas longe de ser especial. Uma espécie com uma complexa configuração genética, mas que prova a cada linha que escreve de sua extensa história, que esta complexidade e diferenciação longe estão de ser algo bom ou passível de orgulho, para quem quer que seja.


Seria realmente uma raça inteligente, a única no planeta a qual mata outros seres por prazer? Seria mesmo capaz de evoluir, uma espécie que guerreava por territórios há milhares de anos, e que hoje guerreia pelos mesmos motivos, em busca de petróleo? Teria mesmo a capacidade de aprender com o conhecimento previamente adquirido, o único animal que devasta e destrói, de forma totalmente inconsequente, seu próprio planeta? Basta retirar o véu do orgulho para que possamos ver que somos como um vírus para o planeta, que não se inquietará até que destrua todo o hospedeiro, destruindo também, felizmente, a si mesmo. Enxergando também que sem nós, sem a nossa existência, o mundo estaria em completa harmonia, com todas as suas formas de vida coexistindo de forma simples e natural. Basta retirar o véu da prepotência para que possamos ver que somos, na verdade, a forma de vida mais atrasada, menos especial e menos evoluída que existe.


Este é nosso assustador autorretrato no planeta Terra, mas o que acontece se analisarmos mais amplamente, em todo o universo? Retomando a comparação da nossa configuração genética com a do chipanzé, aprofundamo-nos um pouco nesta mesma linha de raciocínio, porém não mais comparando o chipanzé a nós, e sim nós a uma espécie fictícia, que tenha o DNA 1% mais complexo que o nosso, da mesma forma que nós temos em relação ao do chipanzé. Fica claro que, perto destes seres, seríamos como completos imbecis ignorantes. Se esta pequena diferença nos distanciou tão significativamente de nossos amigos primatas, imagine você o quão distante estaria de nós esta outra espécie, que habilidades teriam desenvolvidas, quais suas capacidades, complexidade e formas de comunicação e acúmulo de conhecimento.


Este espetacular ponto de vista nos dá um severo indicativo de que, se em algum lugar deste infinito universo realmente existe alguma forma de vida geneticamente mais avançada, de forma alguma teriam qualquer intenção de estabelecer algum tipo de comunicação ou contato conosco, afinal, qual foi a última vez que você tentou conversar com um macaco? E expandindo esta linha de pensamento podemos quebrar nossas barreiras mentais e pensar em outras possibilidades, em uma diferença genética maior ainda, em porcentagem. Pense em uma espécie 2, 20, 80 ou 200% mais desenvolvida. Seríamos como protozoários, como bactérias para eles, vivendo de forma patética em um habitat limitado, uma forma de vida desprezível e pouquíssimo interessante, a qual nem ao menos capacidade para algum tipo de comunicação possuiríamos, devido a limitações, tanto físicas quanto mentais. Através deste ponto de vista, também podemos considerar um grande aumento na probabilidade da existência fatídica dessas outras formas de vida, pois descarta por completo o pensamento patético e limitado de que, se houvesse realmente alguém em algum lugar, além de nós, já teriam feito contato conosco.


Além disso, a vida, por si só, apesar de corriqueiramente atribuída a algo divino ou especial, pode ser considerada química e fisicamente inevitável ou instantânea, tendo exatamente a mesma probabilidade de se formar e existir, da forma a qual for, em qualquer lugar do universo que tenha condições favoráveis para sua formação e existência. Sendo assim, é completamente provável e plausível que exista uma infinidade de outras espécies, com uma infinidade de combinações genéticas, mais, menos ou igualmente dispostas em relação a nossa pequena e medíocre raça, na imensidão do infinito. Vale ressaltar então, com alguma perspicácia por parte deste escritor, que acreditar que estamos sozinhos no universo é só mais um pequeno demonstrativo da grande imbecilidade humana, afinal, se somos realmente os seres mais desenvolvidos no profundo infinito, é com uma imensa tristeza que eu exclamo: esperava mais de você, UNIVERSO!


E se nesses 60 mil anos de existência, nós apenas regredimos, como mostramos aqui, ainda praticando incorretamente a arte de pensar, promovendo o falso bem, criando guerras e invertendo valores, fazendo jus a nossa natureza humana, que um dia já foi a inocente essência puramente animal, nossa perspectiva futura também não é nada promissora. No âmbito físico e ambiental, os atualmente quase 7 bilhões de seres humanos desmatam, em média, 356 milhões de árvores e lançam 63 milhões de toneladas de dióxido de carbono em nossa atmosfera por dia. Mais de 300 espécies de animais foram extintas, apenas nos últimos 500 anos, pela influência humana, e mais de 100 espécies estão em extinção nos próximos 50 anos. De acordo com ONG WWF, com o estilo de vida que, em média, os seres humanos levam hoje, nós consumimos os recursos naturais 30% mais rápido do que a capacidade do planeta de recuperá-los. Esta ampla situação fica evidente nas fotos do planeta visto do espaço, divulgadas pela NASA em 1978 e em 2012, que mostram de forma clara e chocante esta triste realidade.





No âmbito moral, não obstante, nossa projeção existencial também é deplorável. Para enxergarmos a que ponto chegamos e ver o quão difícil se tornou ter alguma esperança nos seres humanos, vos indico um simples teste, tema do filme “A Caixa”. Imagine que em um dia qualquer, alguém que você nunca viu lhe trouxesse uma caixa, com um botão e lhe fizesse a seguinte proposta: você fica com a caixa durante 24 horas, e tem a opção de apertar, ou não, o botão. Ao apertar o botão, você automaticamente ganha um milhão de reais, e ao mesmo tempo alguém, que certamente você não conhece, morre. Essas são as únicas informações disponíveis. O teste que indico aqui é fazer, para quem você desejar, a seguinte pergunta: VOCÊ APERTARIA?

Acredito que, assim como este quem vos escreve, você poderá contar nos dedos, de todas as centenas de pessoas que conhece, as que realmente não apertariam o tal botão, ao contrário do que fez, no filme, a personagem interpretada por Cameron Diaz, dando início a toda a trama. Este é um teste bastante ilustrativo e prático, mas com resultados bastante poderosos e claros. Com ele, você pode facilmente enxergar com quantos assassinos convivemos no dia-a-dia, quantos deles são nossos colegas, amigos, familiares, ou até nós mesmos! Vivemos ao lado de pessoas que não retiraram vidas de outras em troca de dinheiro, apenas pela falta de uma “boa” oportunidade, como a deste exemplo, nos mostrando o quão fundo estamos mergulhados neste sistema capitalista e ganancioso, vivendo em função apenas do dinheiro, cujo valor ultrapassa cada vez mais o da vida.

Enfim, feitas estas análises, do passado, presente e futuro, dentro e fora do planeta, da raça humana, não apenas neste texto, mas em todos os outros anteriores, desenhamos o mais feio autorretrato o qual podemos imaginar, com a permanente tinta da verdade. Fazendo estas análises, em todos estes textos, não poderia concluir este indicando alguma solução, ou mostrando aspectos de melhora e mudança, como fiz nos anteriores. O fato é que, infelizmente, ao tratar de tais assuntos, o pessimismo parece reinar, mas é apenas a velha e dura verdade, a qual sempre escrevo de forma mais sincera possível. Verdade esta que podemos escolher aceita-la ou não, modifica-la ou não, mas que acima de tudo, por bem ou por mal, nos faz enxergar OUTRO LADO DA MOEDA.

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