quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Co-otidiano

Pré-requisito (obrigatório): Cotidiano
Autor: Gustavo Spina

DORMI, com aquela mesma terrível sensação de todos os outros intermináveis e cansativos dias. Minutos antes, ao mesmo tempo em que meus olhos ardentes de sono me imploravam para que dormisse, meu cérebro trazia à tona, nos mínimos detalhes, tudo o que havia acontecido naquela terça-feira nublada, me forçando a pensar em tudo ao mesmo tempo, e me mantendo, dessa forma, acordado. Mas não por muito tempo, como de praxe, meus olhos venceram a batalha, e logo estava dormindo. Não obstante, em pouco tempo já abria meus olhos novamente, para mais um dia do meu cotidiano. Ao abri-los, senti tudo diferente. Apesar das poucas horas que passara dormindo, não me sentia cansado, com sono, tampouco indisposto como de costume. Estranhei, e, aproveitando desta surpreendente energia que me envolvia, não me demorei a levantar e começar aquele que seria o melhor dia de toda a minha vida.

Já pronto para ir ao serviço, tomando café da manhã, recebo uma ligação da empresa onde trabalho. Não reconheci o número, a princípio, mas ao atender percebi que era meu chefe. Em poucos minutos, ouvi tudo o que ele tinha a dizer e desliguei. Permaneci, por alguns instantes, estático, pasmo. Não acreditava no que acabara de ouvir. Não teríamos atividade na empresa, eles organizaram uma ação de caridade com os lucros excessivos que obtiveram no fim do ano, que acabara de passar. Só precisavam de uma parceria para que isso fosse possível, e, como esta foi confirmada ontem à noite, só puderam avisar os funcionários deste fato hoje pela manhã. Não sabia ao certo se era algum tipo de teste ou brincadeira, meu chefe não era do tipo generoso, contudo, resolvi aproveitar o dia de folga para relaxar um pouco. Já que estava acordado, decidi ir ao parque da cidade.

Troquei novamente de roupa e estava pronto para sair, quando ouço a campainha. Ao atender a porta me deparei com uma senhora munida de uma grande sacola de pano, que, com um sorriso no rosto, me disse: “Bom dia meu jovem!” Em frações de segundo já imaginava que ela estava ali para trazer a palavra de alguma figura religiosa, a qual eu não tinha alguma intenção de ouvir, ou mesmo vender algum produto barato, que eu não tinha alguma intenção de comprar, mas antes mesmo que eu pudesse me arrepender de ter aberto o portão ela tirou uma rosa da sacola e me entregou. Era uma rosa grande e bonita, com um bilhetinho atrelado a ela, preso ao caule com fita adesiva. Ao me entrega-la, ela me disse: “Esta rosa é para você entregar pra pessoa que você mais ama! Tá bom meu filho? Tenha um ótimo dia!”. Outra vez fiquei estático, sem reação. Ainda sorrindo, a senhora foi em direção à casa do lado e eu, sem entender aquilo tudo, apenas deixei a rosa na mesa da cozinha, peguei minha mochila e fui para o parque.

Não moro longe do parque, por isso fui a pé. No único semáforo que precisava atravessar, já próximo do parque, percebi, ainda de longe, uma grande quantidade de pessoas. Estavam com algumas faixas e vestiam camisetas iguais. Ao me aproximar mais, pude perceber que também havia um cadeirante, e que, quando o semáforo fechava para os carros, todos eles invadiam a faixa de pedestres, repetindo frases. Só quando já esperava para atravessar é que soube do que se tratava. Aquele semáforo é perigoso, e já contava com inúmeros acidentes e mortes por atropelamento. Por isso, aquele senhor cadeirante, vítima de um atropelamento naquele semáforo, fato que o deixara naquela situação, resolveu organizar aquele movimento de conscientização, onde mostravam fotos dos acidentes e vítimas, com faixas que pediam para os condutores terem mais cuidado e respeito à vida. Admirei a iniciativa daquele senhor. Atravessei a avenida, e cheguei ao parque.

No parque, procurei visitar os lugares de sempre. Aquela disposição estranha ainda tomava conta do meu corpo, mas essa não era a única sensação estranha. Sentia tudo também diferente, como se as pessoas estivessem mais felizes, mais sorridentes, emanando boas energias, todas vivendo harmoniosamente como um único e grande organismo vivo chamado humanidade. Em meio a essas boas sensações, o primeiro local que fui foi para um pequeno centro de exposições que ficava logo após a entrada principal, sempre checava os diversos temas expostos mensalmente ali. Ao entrar naquele grande saguão, me deparei com uma enorme quantidade de crianças, todas sentadas ao chão. Era uma excursão de alguma escola do bairro. Enquanto via a exposição, pude também ouvir o que as professoras diziam, e novamente, não acreditava no que meus ouvidos me diziam, tampouco no que os meus olhos me mostravam. A exposição intitulada “O mundo 100 bem” trazia resumidamente, cem histórias incríveis de pessoas e grupos que praticaram o bem das mais inusitadas e audaciosas formas, mas que não ficaram famosos, além de enfatizar como o mundo seria diferente sem aquelas pessoas. Ao mesmo tempo, de acordo com o tema, as professoras falavam a seus pequeninos alunos a importância da prática do bem, e como aquelas cem histórias contribuíram para um mundo melhor.

Fiquei emocionado. Há muito tempo não ouvia falar de coisas boas, e há mais tempo ainda não tinha, em meu coração, o que aquele lugar me deu: esperança! Saí daquele lugar com mais disposição do que havia entrado. De repente eu queria conhecer mais, queria ver mais pessoas, sentir mais emoções, aproveitar mais daquele dia tão estranhamente bom! Fui então andando em direção ao grande lago do parque. Atravessei a ponte observando as árvores, os pássaros, os peixes e as aves nadando vagarosamente no lago. Pela primeira vez não havia sujeira no chão e na água, nem pichações nas árvores e na ponte. Mais a frente, havia uma barraquinha toda verde e brilhante. Em cima dela havia uma faixa de uma ONG qualquer. Não hesitei, fui ver o que era. Chegando lá, após enfrentar uma pequena fila, o jovem rapaz, com muita clareza e boa vontade, me explicou do evento daquela instituição, que era totalmente gratuito. Consistia apenas em depositar em uma caixa uma mensagem de conforto, por escrito, e em troca, você teria a tarefa de plantar uma árvore, naquela região do parque delimitada por eles. Aquelas mensagens, explicava o entusiasmado garoto, seriam levadas às famílias paupérrimas do sertão, vitimas da seca e da miséria, que haviam perdido, recentemente, entes queridos mediante tais circunstâncias. A cada árvore plantada, a ONG receberia uma quantia em dinheiro, do governo, o que possibilitaria para eles o envio, não só daquelas mensagens, mas também de uma ajuda humanitária àquela comunidade, para que não houvesse mais mortes.

Assinei a lista dos participantes, escrevi uma bela mensagem e depositei na caixa. Com alegria, uma moça, igualmente jovem, entregou-me a semente e uma plaquinha com meu nome, para que eu pusesse ao lado da árvore, que aos poucos cresceria cada vez mais. Tendo feito isso, agradeci pela oportunidade e despedi-me, com grande satisfação. Minha barriga então doeu. Era fome. À procura por comida, acabei recorrendo a um lanche natural acompanhado de um suco de laranja bem gelado, estava muito calor. Tendo almoçado, descansado um pouco e dado mais uma volta no parque, olhei no relógio, o tempo voou. Já passava das 17 horas, precisava partir. Não tinha trabalho, mas a faculdade me aguardava, sem mudanças. Sem demora estava em casa, e com o mesmo ritmo, chegava à faculdade a tempo, para as aulas que se iniciavam às 19 horas.

Era começo do ano, primeira semana de aula, não conhecia quase ninguém da minha sala, por isso permaneci quieto o tempo todo. Mas não prestava atenção na aula. Minha cabeça estava volitando por tudo o que já havia acontecido naquele dia, e sem que eu pudesse perceber, chegou a hora do intervalo. Saí da sala, ainda pensativo, quando alguém me chama a atenção: “Ei, menino. Oi! Tudo bem?” Era uma menina da minha sala. A princípio não lembrava se a conhecia ou não, mas a resposta correta era a ultima opção. Fui simpático e passamos todo o intervalo conversando. Ela estava muito feliz, algo muito bom havia acontecido a ela naquele mesmo dia, e por isso ela procurou alguém para contar a história, que por um acaso, acabou sendo eu. Seu pai, contou ela, era bastante distante, apesar de ainda ser casado com sua mãe e morarem os três juntos. Ele não era muito de conversa, e quando falava algo para ela, era para repreendê-la. Porém nesta manhã, ele havia conversado com ela, admitido os erros e prometeu que seria mais presente e tolerante. Aquilo foi como ganhar na loteria, para ela. A felicidade com que ela me contava cada detalhe comprovava de uma vez por todas que pequenos gestos realmente promovem grandes mudanças, e que para fazer alguém feliz, não são necessárias grandes quantias em dinheiro, tampouco planos e ideias muito elaboradas. São realmente as coisas simples que fazem a diferença na vida das pessoas.
Voltamos do intervalo e breve era a hora de ir embora. Despedi-me daquela nova amizade e segui meu caminho de volta pra casa. Aquele dia maravilhoso estava acabando, mas suas surpresas não. Sem que eu soubesse, agora era a minha vez de contribuir para toda aquela coleção de bons exemplos que acontecera durante todo o dia. Ao passar por um morador de rua, próximo à estação de trem a qual devo entrar, percebi que aquela era minha oportunidade de praticar o bem. Fui até a padaria da esquina, comprei dois lanches e um suco, voltei, abaixei ao lado daquela pobre alma, estendi os lanches e o suco e disse: “Boa noite, amigo. É pra você.” Um pouco assustado, ele pegou tudo cuidadosamente, agradeceu-me um pouco tímido, mas seu olhar foi o suficiente para me garantir que eu havia feito o certo.

Com o coração cheio e ao mesmo tempo leve, segui meu caminho. Não lembrava da ultima vez que havia sentido aquela sensação tão nobre e pura, a qual estava sentindo. Aliás, qual fora a ultima vez que havia praticado o bem? Enfim, peguei o trem, e entre as várias boas lembranças que aquele dia me trazia à mente, logo estava em casa. Cheguei entusiasmado como nunca, queria contar tudo a meus pais, porém, a me ver entrando pela sala, minha mãe se põe a chorar. Fiquei assustado, minha relação com ela estava um pouco conturbada e abalada por recentes desentendimentos. Mas antes que eu pudesse perguntar o que havia acontecido, com um enorme sorriso ela me abraça, ainda chorando. Era um pranto de felicidade e emoção. Foi o abraço mais forte e longo que ela já tinha me dado em toda minha vida. Aproveitei e a abracei igualmente forte, enquanto meu pai assistia à televisão, sentado no sofá. Após alguns minutos abraçados, ela respirou bem fundo, olhou nos meus olhos e me disse: “Obrigado pela flor, você também é a pessoa que eu mais amo na minha vida!”. Fui rapidamente até a cozinha, olhei na mesa e lá estava a flor que aquela senhora havia me dado de manhã, já em um recipiente com água. Ao lado estava aberto o bilhetinho que estava atrelado à flor quando a recebi. Ao ler o que estava escrito, tudo fez sentido, pois a frase dizia, de forma clara e objetiva: “Mãe, você é a pessoa que eu mais amo na minha vida!”.

Já era tarde e, com isto, aquele dia havia chegado ao fim. Tomei banho e me deitei. Com os olhos fechados pensava naquele dia: era aquele mesmo o meu COTIDIANO? Não podia ser! E não era mesmo. A ultima surpresa daquele dia então aconteceu, porém esta, ao contrário de todas as outras, não foi nada boa. Em meio a tantos pensamentos, em vez de dormir, na verdade eu acordei, e me dei conta de que infelizmente tudo aquilo não passara de um maravilhoso sonho!

Eram três da manhã. Meus olhos se encheram de lágrima, afinal, o cansaço, o sono e a indisposição dominavam meu corpo por completo. Meu chefe nunca organizou uma ação de caridade e nenhuma senhora jamais bateu à minha porta com uma rosa e um sorriso no rosto. Nunca houve uma mobilização em prol da vida naquele semáforo, tampouco uma exposição que exaltava a caridade, naquele parque, que estava sempre muito poluído. Não havia colaboração do governo com instituição alguma, e o descaso com a seca no nordeste era evidente. As pessoas raramente sorriam e há tempos não ouvia falar de pais compreensivos. E apesar da relação entre eu e minha mãe não ter sido consertada, o que me fez derrubar aquelas lágrimas que não couberam em meus olhos foi o fato de que eu nunca havia ajudado um morador de rua, em toda a minha vida.

Minha cabeça latejava. Precisava mesmo ser um sonho para tudo aquilo acontecer? Eu não sabia ao certo qual era realmente meu cotidiano, mas aquele do sonho, com certeza, não era! E por que não, eu me perguntava. O que é que faltava às pessoas para que agissem daquela forma? O que é que faltava ao mundo para que fosse um lugar tão bom como aquele? E o mais importante: o que é que faltava a mim para que pudesse praticar o bem? Não achava respostas. Não me conformava com tudo aquilo. Não fiquei em paz. Sentia algo diferente, alguma vontade, não sabia ao certo o que era, mas era muito tarde e precisava levantar para trabalhar dali a poucas horas. Resolvi então dormir, guardando aquela estranha sensação para quando de fato precisasse ACORDAR, afinal, como vocês, caros leitores, já sabem, aquela quarta-feira que logo começaria revelaria meu verdadeiro COTIDIANO, e me ensinaria, assim como aquele maravilhoso sonho, que nunca é tarde para vivermos OUTRO LADO DA MOEDA.

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