domingo, 7 de setembro de 2014

Brasileiro

Pré-requisito (opcional): Brasil
Autor: Gustavo Spina

Por alguns instantes me peguei pensando. Surpreendi-me. Não é algo comum, ainda mais na intensidade com que isso estava acontecendo. Estava realmente forçando a minha mente, e sim, eu estava gostando daquilo. Não me lembro por que eu comecei a pensar tão intensamente, mas quando percebi, estava a criar um modelo para o ser humano. Era um modelo simples, onde cada ser humano era dividido em duas partes: a exterior, constituída pelas características físicas, e a interior, constituída pela personalidade, caráter, pensamentos e sentimentos. E foi quando eu apliquei este modelo a mim, que eu descobri quem eu realmente sou.

Por fora, eu sou mulher, sou homem. Eu sou alto, sou baixo, gigante e anão. Sou negro, sou pardo, mulato, amarelo, vermelho e branco. Sou criança, adolescente, adulto e idoso. Sou magro, gordo, esquelético e obeso. Tenho cabelo curto, comprido, liso e encaracolado. Tenho cinco, dez, vinte, quarenta e oitenta anos. Tenho olhos azuis, verdes, castanhos e cor de mel. Sou feio e bonito. Por fora eu sou assim, tenho qualquer formato ou aparência, mas por dentro sou apenas um, sejam quais forem minhas características exteriores, por dentro, eu sou brasileiro.

De tudo aquilo que compõe o vazio da minha personalidade, o que me menos me preenche é a educação. Não é da minha cultura, há muito tempo. Na verdade, acho que nunca foi. Meus pais não puderam me educar corretamente, tampouco poderei educar meus filhos, afinal, cada pessoa só pode dar aquilo que possui, certo? Odeio ter que ir pra escola, e não me interesso nem um pouco pelos meus estudos. Não sei bem ao certo se essa falta de interesse é fruto da falta de incentivo e oportunidades, ou se meus interesses só dão espaço para as futilidades que preenchem o meu pequeno cérebro. O fato é que o ensino é de péssima qualidade, e minha falta de comprometimento contribui muito para isto. Uma coisa puxa a outra, mas como eu não sou capaz de enxergar que esta minha postura de adolescente imbecil ajuda a construir este sistema de ensino pífio e idiotizador, eu continuo a ir para a escola apenas para encontrar meus colegas e dar umas boas risadas.

Em minha vida adulta, isso se concretiza de forma assombrosa. Jogo lixo nas ruas, constantemente, mas costumo culpar a política pelas enchentes que, não raramente, levam embora o pouco que tenho. Odeio ter que ir trabalhar, e meu passatempo predileto é falar mal da minha empresa e do meu chefe. Não sei bem ao certo se essa falta de interesse é fruto das condições precárias de transporte, as quais enfrento toda manhã, seja no trânsito ou no transporte público; ou se os meus interesses continuam dando espaço apenas para as futilidades que preenchem o meu ainda pequeníssimo cérebro. O fato é que as vias, nas grandes cidades, são superlotadas e o sistema de transporte público, quando existe, é ausente de um bom planejamento, e minha ignorância quanto ser humano contribui muito para isto. Uma coisa puxa a outra, mas como eu não sou capaz de enxergar que esta minha postura de animal acéfalo desprovido de qualquer resquício de respeito, empurrando as outras pessoas nos trens e nos ônibus, ou infringindo as leis de trânsito, ajuda a construir essa sociedade doente e selvagem, eu continuo agindo da forma como sempre agi: sem pensar.

Não fui ensinado a pensar, e por incrível que pareça, essa foi a única coisa que aprendi muito bem. E mesmo sem saber pensar, constantemente escarro diversas opiniões, que por mais absurdas e ridículas, acho prudentes e sensatas, embora não saiba nem ao menos o que significam essas duas últimas palavras. Apesar de viver na era da informação, e ter um universo inteiro de possibilidades de aprendizado através da internet, não sabendo pensar, de nada adianta, pois não sou capaz de unir essas informações para que se torne conhecimento. E são exatamente estas condições que me dão a falsa ilusão de que possuo conhecimento sobre algum assunto, apenas porque tenho acesso a diversas informações sobre o mesmo. Dessa forma, costumo balbuciar asneiras, afirmando, por exemplo, que a solução para o problema da violência no Brasil é a redução da maioridade penal, ou que o programa “Bolsa Família” é esmola para vagabundos e serve apenas para a compra de votos. De vez em quando vou até um pouco mais longe, confundindo o sistema capitalista com meritocracia, ou defendendo o socialismo e comunismo, com a pretensão de que os outros achem que entendo algum desses assuntos. Ainda sem pensar, passo horas atacando o PSDB ou o PT, a ‘direita’ ou a ‘esquerda’, e culpando os políticos pela minha situação mísera de vida.

E por falar em política, como posso eu discuti-la, se não sou nem um pouco politizado? É por isto que costumo dizer que política não se discute, e mais uma vez, meus interesses não tangem, nem de longe, este tipo de assunto. A política, no meu país, é uma grande piada, onde, embora os protagonistas sejam os políticos, o palhaço sou eu. O que me resta é dar umas boas risadas ao assistir o horário eleitoral. Mas nem sempre levo na brincadeira, às vezes isso tudo me irrita, e sempre acabo por discutir uma ou outra solução para essa corrupção toda. Repito, feito papagaio, que ninguém faz nada para mudar essa situação, que se o povo quiser, pode mudar o país, mas quando, raramente, acontece um protesto, sentado em meu sofá eu me posiciono contra. Não suporto todo aquele vandalismo. É claro que este meu posicionamento não vem de mim. Sem que eu perceba, estou repetindo o que a mídia me mostra, sem analisar os fatos, ou pesquisar sua veracidade em outras fontes de informação. É incrível como meus olhos são treinados a enxergar apenas o que as emissoras de televisão me mostram, e é por isso que vidraças quebradas me impressionam mais do que as inúmeras mortes por falta de atendimento em filas de hospitais, por assassinatos devido a falta de segurança, ou por acidentes de trânsito, devido as más condições de nossas rodovias. Sem contar quantas vidas deixariam de ser assoladas pela miséria, o quanto meu poder de aquisição e minhas condições de vida seriam melhores se não houvesse toda essa corrupção, mas, infelizmente, não sou capaz de enxergar isto, e, por isso, continuo sendo contra os protestos.

Apesar de ser um cidadão completamente inútil, não me enxergo dessa forma. Acredito que eu faço a minha parte sim. Sempre que posso, compartilho imagens que mostram a realidade do meu país, nas minhas redes sociais. No vazio interno de minha cabeça, mostrar para os meus amigos os escândalos de corrupção ou imagens de agressão contra pessoas e animais vai, de alguma forma, sanar esses problemas. De alguma forma milagrosa, talvez. E por falar em milagres, sou, sobretudo, uma pessoa bastante religiosa. O Brasil é um país ocidental e aberto a todo tipo de religião. Acreditar ou ter esperança é algo natural e necessário para mim. Mesmo sem fazer absolutamente nada por merecer ou para contribuir para isso, acredito no futuro e tenho certeza que tudo ficará bem. É assim que funciona a famosa : pura e simplesmente acreditar em algo, mesmo que não faça sentido, ou que tudo aponte para o lado contrário de toda e qualquer argumentação e evidência.

Eu preciso acreditar que tudo vai ficar bem. Preciso acreditar que só o melhor me acontece. Preciso ter esperança no futuro. Vazio como sou, algo precisa me preencher. Não seria capaz de viver apenas com a realidade, por isso grudo com todas as minhas garras em algo que me garanta que tudo vai dar certo, que me garanta felicidade, paz, e tudo aquilo que eu não tenho em minha vida sofrida. A realidade dói, e para toda dor, deve haver uma cura. Por isso, sou fervorosamente religioso, mesmo sem necessariamente seguir alguma doutrina. Ah sim, finalmente achei algo que é da minha cultura: reivindicar e exaltar os meus direitos, mas nunca cumprir minhas obrigações.

Embora o Brasil tenha uma das mais completas e corretas constituições, no que se refere à legislação, a lei que mais praticamos não está escrita em nenhum papel: a HIPOCRISIA. É sobre os pilares dessa palavra que estruturo todo o meu ser. Sou extremamente hipócrita no meu dia a dia. Não sei bem ao certo se esta conduta é fruto da corrupção praticada na política, desde que esta terra foi invadida pelos europeus, em conjunto com a impunidade, ou se é algo genético herdado dos ladrões que foram exilados de outros continentes para este grande pedaço de terra, há algumas centenas de anos. O fato é que somos todos “farinha do mesmo saco”, e minhas atitudes contribuem muito para isto. Uma coisa puxa a outra, mas como eu não sou capaz de enxergar que esta postura de querer sempre levar vantagem sobre as outras pessoas, em tudo o que eu faço, ajuda a fazer com que a situação deste país continue digna de pena, eu continuo praticando minha hipocrisia cotidiana.

É por ser hipócrita que vou continuar reclamando da corrupção, mas nunca devolvendo o troco a mais que, por engano, me deram. Reclamando da falta de honestidade, mas, sempre que possível, consultando meu material nas minhas provas em que a consulta não é permitida. Reclamando do tráfico e roubos, mas sempre adquirindo softwares piratas. Dizendo que não é correto dar esmola, e que deve se “ensinar a pescar”, sentado no carro que meu pai me deu, indo para a faculdade que ele paga, ansioso pelo fim-de-semana para poder gastar toda minha mesada. Fazendo sempre discursos moralistas nas minhas redes sociais, depois de falar mal dos meus vizinhos do lado esquerdo, para os vizinhos do lado direito. Dizendo categoricamente que não sou preconceituoso, só não aceito nem pensar na possibilidade do meu filho ser homossexual. Posicionando-me contra a violência, mas repetindo constantemente que “bandido bom é bandido morto”, entre outras centenas de exemplos.

Mas, infelizmente, não sou capaz de enxergar nem mesmo que sou dessa forma. Meus olhos estão ocupados demais em frente aos meus lazeres. Afinal de contas, minha vida não pode se resumir em acordar cedo, gladiar para poder chegar ao serviço, trabalhar feito condenado por um salário mínimo vergonhosamente baixo, voltar para casa, esgotado, e dormir. Embora, na maioria das vezes, seja exatamente esse o resumo dos meus incontáveis dias. Eu mereço um pouco de lazer, por isso me prendo tanto às minhas novelas, por isso discuto calorosamente e me preocupo com o que está acontecendo nos talk shows ou reality shows, por isso amo tanto meu time de futebol, afinal, é isso que me proporciona as poucas doses de prazer que essa vida me oferece. E realmente não há nada de errado com isso. O problema é que, por serem minhas únicas e poucas alegrias diárias, faço disso as razões da minha vida, e levo a importância de uma futilidade a patamares inacreditavelmente altos, bagunçando por completo minha noção de comportamento e prioridades.

Enfim, este sou eu. Mas não sou quem eu achava que era. Este é quem eu realmente sou, e só descobri agora, quando apliquei aquele modelo de ser humano a mim. Sim, eu também fiquei surpreso quando acabei. Bastou que eu pensasse um pouco mais intensamente para que toda essa minha personalidade, caráter e características internas viessem à tona. Será mesmo possível que eu tenha sido desse jeito, por todo esse tempo, sem saber? Estava a pensar mais ainda agora. Dessa vez eu tinha a certeza de que, se continuasse a pensar, mais da minha personalidade eu poderia descobrir e entender, para depois, pensando mais ainda, tentar mudar. Tinha a certeza também de que, se eu mudasse internamente, tudo também mudaria à minha volta. Uma coisa puxa a outra, e finalmente eu estava sendo capaz de enxergar que devia mudar minha postura para que pudesse mudar o meu país. Estava sendo capaz de enxergar que deveria abrir mais os olhos, que deveria abrir mais a minha mente e pensar mais, afinal, eu sou brasileiro, e não desisto nunca de tentar mostrar para o mundo OUTRO LADO DA MOEDA.

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