sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Aprendendo a Aprender

Pré-requisito: Nenhum
Autor: Gustavo Spina

É inegável que nestes 65 milhões de anos de existência, nós humanos temos aprendido algumas coisas. Entretanto, a meu ver, aprendemos em uma quantidade e com uma profundidade muito inferior do que poderíamos ter aprendido. Com base nesta observação, neste texto nós faremos uma análise sobre o ser humano como um aprendiz, discutindo seus aspectos e forma de aprendizado. Por último, e como ponto principal deste texto, vamos formular e propor uma nova e melhor forma de aprender, que pode aumentar exponencialmente nossa eficiência neste campo.

Há quem diga que tudo, neste mundo, é aprendizado. O que me preocupa é que, se esta afirmação está correta, por que é que, em todo esse tempo, nós humanos não nos diferenciamos muito de nossos antepassados, que, há muito tempo, utilizavam paus e pedras e caçavam grandes animais para se alimentarem? A resposta para esta pergunta está no fato de que não sabemos aprender. Ainda hoje, agimos de forma selvagem e sem pensar, enxergando uns aos outros como inimigos, competidores mútuos pelo mesmo espaço e recursos naturais. Gladiamos constantemente por nossos interesses, repetindo as mesmas barbaridades e atitudes deploráveis de dezenas de milhões de anos atrás.

Com isto, é possível perceber que as maiores diferenças entre os seres humanos no início de nossa história, e nós humanos de hoje, são as técnicas e ferramentas que utilizamos para nos auxiliar em nossos objetivos, e não a moral e a benevolência, que cresceram e evoluíram de forma muito mais tímida. É como se, em algum momento de seu processo evolutivo, as hienas passassem a comer utilizando garfo e faca: elas continuariam comendo carniça, porém com ferramentas mais sofisticadas, que as auxiliariam a realizar esta tarefa. Isto caracteriza nosso aprendizado como sendo mais eficiente exteriormente do que interiormente, resultando em um desenvolvimento extremamente melhor e mais elaborado de técnicas e ferramentas utilizadas para as mesmas pífias e inconsequentes finalidades e tarefas de sempre.

Para entendermos nosso simples e intuitivo sistema de aprendizado, vamos elaborar um modelo. Este sistema pode ser modelado da seguinte forma: seja ‘E’ a entrada, ‘S’ a saída desejada, ‘S*’ a saída real e ‘R’ o erro do sistema. Dessa forma, fornecemos uma dada entrada E para produzir a saída desejada S. Depois de fornecida toda a entrada, verificamos se a saída real S* corresponde à saída S que desejamos atingir. Se ela corresponde sem erros, significa que a entrada está correta e, portanto, não há mais o que aprender sobre esta ação. Caso a saída real de nosso sistema seja diferente daquela que desejamos, devemos calcular o erro, que é a diferença entre ‘S’ e ‘S*’ e verificar qual a mudança necessária em nossa entrada para que a saída real se aproxime da desejada e esse erro seja levado à zero. Este processo de verificação e mudança da entrada para minimizar o erro é que corresponde, justamente, ao nosso processo de aprendizado.


Guardando agora toda esta engenharia, vamos exemplificar o funcionamento desse sistema, para que o leitor possa constatar o quão simples é esta ideia. Imagine a simples situação do preparo de um café: as entradas desse sistema são as quantidades de pó de café e de água são adicionadas à cafeteira e a quantidade de açúcar que é adicionada, posteriormente, ao café. A saída desse sistema é nada mais que o café que você deseja. Supondo que seu objetivo seja preparar um café bastante forte e doce, você adiciona uma dada porção de água, de pó de café, e depois, de açúcar. Ao bebê-lo você irá verificar se seu objetivo foi alcançado. Ou seja, se o café está forte e doce, então você já sabe prepara-lo perfeitamente, e não há mais o que aprender, neste caso. Caso o café esteja diferente do desejado, você irá comparar o café feito com o café desejado e mensurar o erro, a diferença entre os dois, aprendendo com aquela situação, e modificando, na próxima vez que for prepara-lo, as quantidades de água, pó de café e açúcar, de forma que o erro seja minimizado e você consiga fazer o café forte e doce que deseja.

Apesar de longamente descrito, este processo de aprendizado nos é intrínseco, e o utilizamos constantemente, sem ao menos perceber. Seja ao realizar alguma tarefa no trabalho, seja no modo como conversamos com nossos filhos, na maneira como dirigimos automóveis ou até mesmo como lidamos com nossos sentimentos - tudo se baseia neste processo simples de agir, verificar os resultados, medir o erro, modificar a ação, agir novamente, verificar os novos resultados, medir novamente o erro, e assim por diante, aprendendo com as situações até que não haja mais erros. É por isso que dizemos aprender com os erros, ou mesmo, aprender com as situações adversas.

Agora que modelamos e entendemos como funciona nosso processo de aprendizado, o restante do texto será uma discussão sobre algumas implicações decorrentes desta maneira de aprender, depois identificaremos algumas falhas e, por fim, vamos propor um novo e melhor método de aprendizado, que aperfeiçoe nossa forma de aprender.

O fato de aprendermos com nossos erros e com situações adversas pode nos ensinar muitas coisas sobre nós mesmos. Com isto, podemos, por exemplo, considerando o universo e nossa existência como um contínuo processo de evolução, entender o porquê este planeta é como é, e o porquê estamos todos juntos aqui. A raça humana faz do planeta Terra um ambiente hostil, recheado de infinitas adversidades. Não é difícil perceber o quão somos, apesar de todos humanos, diferentes uns dos outros. Vivemos todos juntos num mesmo lugar, mas mesmo assim falamos mais de 6 mil idiomas diferentes, possuímos cerca de 10 mil religiões diferentes, convivemos com milhares de culturas, costumes e diferentes formas de pensar, fazendo com que cada ser humano tenha um objetivo único de vida, distinto de todos os outros, nos forçando a competir mutuamente, cada um por si, em busca do que nos satisfaça. Sendo assim, de que outra forma ou em qual outro lugar poderíamos evoluir mais do que aqui?

São justamente essas infinitas diferenças entre nós que causam todas essas situações adversas às quais nos induzem aos erros, fazendo com que aprendamos com eles, a todo instante. Em suma, na Terra, estamos constantemente sendo testados e expostos a situações difíceis, evoluindo sempre, diferentemente do que aconteceria se estivéssemos em um lugar onde anjos tocam harpas e você, deitado, admira um ser supremo, por toda a eternidade. Seria possível aprendermos a amar de verdade em um lugar onde tudo o que fazemos é admirar a limpidez das nuvens enquanto nossas crianças brincam em campos floridos com grandes e dóceis leões?


É extremamente interessante perceber que, basta uma pequena análise e discussão sobre o modo como nós aprendemos, e já conseguimos quebrar dogmas e paradigmas como esta famosa ideia pictórica do ‘paraíso’, enxergando que, em um lugar como este, não há aprendizado, tampouco evolução, e, dessa forma, não nos faria bem em momento algum de nossas eternas existências.

Seguindo nossa análise, nosso processo de aprendizado pode também ser entendido, basicamente, como um ‘aprender com os erros do passado’. Se o leitor ainda se lembra do nosso exemplo da preparação do café, pode facilmente constatar isto, pois ao preparar novamente o café, lembraremos da forma como o preparamos anteriormente e do erro causado, para que possamos agora preparar da forma correta - e isto nada mais é do que aprender com um erro do passado. Apesar de este processo funcionar muito bem, nem sempre somos nós que cometemos os erros no passado, e, neste caso, as modificações feitas em nossas ações nem sempre minimizam estes erros. Em outras palavras, constantemente modificamos nossas atitudes nos baseando nos resultados errados produzidos, anteriormente, por outras pessoas. Como exemplo, podemos imaginar a situação de não permitirmos que crianças brinquem na varanda, baseando-se no fato de que, no passado, alguma pessoa permitiu e alguma criança caiu de lá.

O problema aqui está no fato de que as pessoas são diferentes e únicas. Dessa forma, erroneamente, não enxergamos que muitas atitudes que podem ter produzido péssimos resultados para outras pessoas no passado, conosco, e no presente, podem produzir bons ou melhores resultados. Este detalhe é evidente, majoritariamente, no processo de educação de pais para com seus filhos, os quais sempre educam e aconselham baseando-se em suas atitudes e erros do passado, sem perceber que seus filhos são outras pessoas, em outra época, vivendo em uma sociedade diferente. Por isso, muitas vezes, as novas atitudes que são ensinadas e aconselhadas, de pais para filhos, não minimizam os erros do passado, fazendo com que eles se repitam ou mesmo se agravem. Tudo muda com o tempo, e não é diferente com o aprendizado.

A partir deste problema apresentado, podemos então apontar a grande e grave falha desta maneira como nós aprendemos: os erros devem sempre ser cometidos para que possamos aprender com eles. É exatamente isto que responde a pergunta feita no início deste texto: este método de aprendizado nos obriga a passar pelas situações para aprendermos com ela. Dessa forma, todas as pessoas têm que passar por toda a infinidade de situações adversas e cometerem todos os possíveis e imagináveis erros para aprender com todos eles. Tendo em vista que o período de nossas vidas é muito curto em comparação ao tempo de existência da humanidade, nosso aprendizado se caracteriza como um processo cíclico de curta duração, tendo que se repetir diversas vezes para que realmente possa produzir alguma mudança significativa em função dos erros.

Em outras palavras, devido ao fato de aprendermos com os erros e de sermos diferentes e únicos, cada um de nós aprende; embora da mesma maneira; de uma forma única, sendo obrigados a passar, individual ou coletivamente, pelos mesmos erros já passados pelas outras pessoas, em outras épocas, resultando na afirmação feita no início do texto, que diz que a humanidade aprende muito lentamente, repetindo por toda sua história os mesmos erros, e cometendo ações deploráveis dignas de nossos ancestrais mais ignorantes, quase tanto quanto somos hoje.

Uma maneira simples de constatarmos esta falha é observarmos, por exemplo, a discriminação causada pelo preconceito. É extremamente comum observarmos que as pessoas que sofrem algum tipo violento de discriminação, em sua maioria, não realizam a mesma, tampouco algum outro tipo de descriminação com as outras pessoas, e, em contrapartida, as pessoas que realizam este tipo de atitude desprezível são justamente, novamente em sua maioria, aqueles que não sofrem qualquer tipo de discriminação. Deste fato podemos concluir que, ao sofrer, por exemplo, discriminação devido a cor de sua pele, uma pessoa negra não discrimina uma pessoa amarela, pelo mesmo motivo, tampouco uma pessoa homossexual. Por ter experimentado na pele a péssima situação de ser discriminado por algo que ele simplesmente é, ele aprende com aquela situação que não se deve discriminar ninguém, pois ninguém mais do que ele têm a certeza de que não é sua culpa, tampouco há algo de errado com ele por ser do jeito que é. Enquanto que o rapaz branco, heterossexual, de altura mediana e de corpo esbelto, que nunca sofreu com preconceito nenhum por se aproximar dos padrões de beleza impostos pela sociedade, não aprendeu, portanto, com esta situação, e continua a praticar este erro.

De fato, apesar de simples e intrínseco a nós, nosso modo de aprendizado não se mostra eficiente, cujos péssimos resultados são claramente visíveis. Por isto, proponho agora um novo método de aprendizado, que faz com que nós possamos, além de aprender com os erros do passado, aprender a aprender.

Vamos voltar ao modelo que fizemos do nosso sistema de aprendizado, onde existia uma entrada ‘E’, saída desejada ‘S’, saída real ‘S*’ e erro ‘R’, mas agora, na parte da análise do erro para a modificação das ações, vamos introduzir um simulador. Este simulador irá pesquisar e adquirir, constantemente, o máximo de informação possível sobre todos os erros, as correções e as diversas entradas fornecidas pelas outras pessoas, para que possa nos auxiliar a minimizar o erro antes mesmo de fornecermos a nossa entrada.


Na prática, este simulador funciona de forma equivalente a observarmos as ações, os resultados e os erros das outras pessoas, ponderar essas informações considerando que cada pessoa é única e diferente de todas as outras, e assim, nos tornando capazes de corrigir nossas ações e evitar que os mesmos erros ocorram novamente, antes mesmo de agir. Isso significa que não precisamos necessariamente passar pelas situações adversas para que possamos aprender com elas. Com isto, não precisamos, por exemplo, ter que sofrer preconceito para aprender o quanto isso é errado, não precisamos ter algum familiar morto por falta de atendimento médico para valorizar os protestos feitos em prol da saúde pública, tampouco ter que passar fome e viver na miséria para valorizar e entender a importância do tão criticado assistencialismo dado pelo governo. Sendo implementado por todos nós, este aprimoramento de nossa forma de aprendizado acelerará o aprendizado total da humanidade, o que fará com que mesmo em um período curto de tempo de uma geração, poderemos ver mudanças significativas individual e coletivamente.

Em suma, neste texto nós partimos de um simples, porém importante questionamento sobre o quão eficiente seria o aprendizado de nós seres humanos. A partir daí, nós modelamos e entendemos a simples e intrínseca forma como nós aprendemos. Algumas implicações foram discutidas, nos levando a observar falhas nesta forma de aprendizado, e então, foi proposto um novo método de aprendizado que, apesar de mais trabalhoso, se mostra muito mais eficiente. Por fim, deixo aqui meu singelo pedido ao leitor para que tente praticar esta nova forma de aprender, não precisando mais sentir na pele as dificuldades, nem mesmo proliferar os erros, aprendendo a aprender, e aprendendo cada vez mais sobre OUTRO LADO DA MOEDA.

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